sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Pathos






[Se me perguntas "o que é o amor?", escolho o equilíbrio harmonioso e instável de um mobile de Calder, unido ao pathos do Romance para Violino de Beethoven. Talvez assim possa mostrar-te um pouco do que todo o amor tem que ser: grandioso e elegante - intenso e contraditório - suave e para lá do eu. Porque todo o amor se encontra e desencontra. Mais não há para dizer. Só muito para escutar e viver.]




{Para a minha filha que hoje é pequenina, embora já seja grandinha}




Imagem: Alexander Calder

domingo, 15 de Novembro de 2009

Um Profeta



Já com pena do Estoril Film Festival 2009 ter chegado ao fim, vi o filme que o encerrou: "Um Profeta", de Jacques Audiard, contando com a sua presença no final da sessão. Descobri o realizador ao tropeçar por acaso, na televisão, numa outra obra sua: "De tanto Bater o meu Coração parou". Fiquei desde logo, aí, presa ao desenrolar do filme. Agora, num registo bastante diferente, confirmo ser Audiard um excelente realizador de cinema.
Este seu último filme promete muitas polémicas, criadas em diferentes contextos (ver vídeo). Desde logo, o facto de não ter recebido o prémio principal no Festival de Cannes, atribuído a "O Laço Branco" de Michael Haneke. Bom, eu vi ambos os filmes, e o que posso dizer é que seria uma pena se qualquer deles não existisse. Visões diferentes, sem dúvida. Mas parece-me excelente que assim seja. Tenho mesmo muita pena que estas guerras de prémios existam.





"Um Profeta" é um filme forte. Pode não ser bonitinho, mas é interessantíssimo por tudo o que expõe da actual sociedade francesa, mas que podia bem ser a portuguesa, ou outra qualquer de hoje. Este olhar impiedoso sobre a (des) humanidade leva-nos a acompanhar o percurso de um anti-herói, no sub-mundo de uma prisão. Compreendemos que o filme é bom à medida que acompanhamos a paulatina construção da identidade de Malik El Djebena (numa memorável interpretação de Tahar Rahim). Há violência no filme, mas rotulá-lo deste modo seria reduzir a muitíssimo pouco tudo aquilo que ele é.
Para todos os que estiverem dispostos a vê-lo, é bom saber que estará brevemente nas salas de cinema.







Imagens: pesquisa do Google

sábado, 14 de Novembro de 2009

À Ester

Amanhã cuidarei de muitas flores
hoje oiço contigo A música
lembras-te:
daqueles anos 80 que nos leram toda a existência?

estão ainda repletos de nós repletos de ti.
Minha amiga onde estás tu? aqui?
ainda neste som que nos consumia?
Lembro-te e são muitos dias...
que vivo também por ti.






[Com saudades de uma amiga]


quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Tempo sem flores







Os dias estão difíceis para manter flores.




Imagem de Gregory Crewdson


sábado, 7 de Novembro de 2009

O laço branco


O laço branco - Michael Haneke





De 5 a 14 de Novembro: Estoril Film Festival


[Agora que vi o filme, posso dizer que é de uma beleza e perfeição esmagadoras (assim o senti perante as imagens de uma luz branca resplandecente que parecia engolir-me e transportar-me para aquela estranha aldeia, laboratório de análise da humanidade). O efeito especial a destacar aqui, é o de todo o filme: um efeito especial inesquecível.
Questões: muitas. Fiquei a pensar (impossível não o fazer): infância, educação, crenças absolutas, repressão desumana - perversão. Como e onde se ligam entre si? Terá o laço branco um reverso tão negro como o ar da noite mais cerrada? Voltarei a tudo isto, certamente.]


terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Invisível

«Pousa a caneta, coça a cabeça, exala. Inopinadamente, um versículo esquecido do Eclesiastes emerge clamoroso na sua consciência. E eu dei o meu coração para conhecer a sabedoria, e para conhecer a loucura e os desvarios... Enquanto rabisca as palavras na margem direita do seu poema, pergunta-se se esta não será a mais verdadeira de todas as coisas que escreveu acerca de si mesmo em muitos meses. As palavras podem não ser suas, mas ele sente que elas lhe pertencem.»
in Invisível, Paul Auster





Até que ponto somos invisíveis para nós mesmos?

Invisível: este é o segundo livro mais inquietante que li de Paul Auster. O outro foi Leviathan. Quem gosta do autor (como eu), não pode perder esta que é a mais recente etapa da sua produção literária. Quem não gosta, pode passar a gostar (?).
A narrativa é visceral - o pensamento quase se pode tocar, as personagens (especialmente Adam Walker) existem como corpos que pensam. Quase - porque há a difusa presença de um inatingível.
Confirmo: Paul Auster é um dos meus escritores preferidos.

Para toda a informação sobre o livro e o autor entrar aqui








Imagem: La reproduction interdite, René Magritte - 1937

domingo, 1 de Novembro de 2009

Não quero




Ir a todas



Imagem: pintura de Edward Burne-Jones

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

O Fundo da Linha - é preciso saber!





segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Estranhos de passagem

Foi aqui que escolhi uma citação de Kierkegaard para fazer uma auto-descrição. Não foi por acaso. Na verdade, o que citei encerra uma espécie de dúvida ou de conflito que se me apresenta no último instante, em diversas situações, interrompendo esse movimento imediato com o qual mergulhamos na existência. Em si mesmo, isto não é positivo, nem negativo. É. Na verdade, trata-se de uma espécie de duelo entre a fé (no seu sentido mais lato) e a razão, onde, no último instante, prevalece a última.
O movimento da fé assemelha-se, na entrega a Deus, ao movimento do amor, na entrega ao amado(a). Em ambas as situações, com as inevitáveis diferenças, domina o incognoscível e há um salto absurdo no desconhecido. O outro é, para nós, no seu sentido mais radical, um estranho. O movimento da fé, tal como o do amor incondicional, implica riscos e exige resignação. Quanto à razão, parece ser um empecilho, do qual não consigo desejar livrar-me. No último instante... é a representação de um salto no vazio, aquilo que inspira temor.

Em Temor e Tremor, Kierkegaard expõe a natureza do conflito e da dúvida que se instala na vivência da fé. É neste contexto que é relembrado o episódio bíblico de Abraão, o qual, para obedecer a Deus, deve sacrificar o seu filho, Isaac. O que Kierkegaard pretende pensar e mostrar (ainda que a fé seja um paradoxo, e do domínio do inexplicável) é que Abraão sacrifica o seu filho porque só assim acredita poder recuperá-lo. Crê que só pela sua completa entrega, no momento de confronto com o absoluto, é possível transcender a sua finitude e, paradoxalmente, possuir aquilo de que abdicou. Abraão resigna-se.
É esta resignação aquilo que constitui o movimento da fé - um salto no desconhecido pela entrega absoluta. Um amor incondicional, inscrito no âmago da vida, colado à sua vivência imediata. Ou se vive assim, ou não se vive. A reflexão não pode ter aqui lugar, porque a fé está para lá da razão. E o amor, não?

Confira-se:
«É agora meu propósito extrair da sua história, sob forma problemática, a dialéctica que comporta para ver que inaudito paradoxo é a fé, paradoxo capaz de fazer de um crime um acto santo e agradável a Deus, paradoxo que devolve a Abraão o seu filho, paradoxo que não pode reduzir-se a nenhum raciocínio, porque a fé começa precisamente onde acaba a razão.»
in Sören Kierkegaard, Temor e Tremor


Imagem: Os Amantes, René Magritte